
Aonde a miséria existe, subsiste um contentamento vísceral e pleno. Um ardor e uma paixão voraz que substitui o grito pelo riso, quando não as lágrimas por gargalhadas.Isto é fatídico e lúdico.
Primeiro eu acerquei-me de toda minha limitação, depois despojei-me das minhas mais intrínsecas mentiras vitais,em seguida revesti-me da minha miserabilidade mais miserável, rejeitei o prato de arroz com feijão mais o vinagrete e o rocambole de carne e queijo do almoço. Esvaziei-me por completo das minhas ilusões de indulto, de minhas ânsias ultrajantes e dos meus trajes também. Voltei-me pro Haiti, bebi aguardente com velhos negros e todos eles eram Toussaint Louverture e todos os dias eram o primeiro de janeiro de 1804 e em todas as festas se praticavam rituais onde o sangue de animais respingava nas faces e os sorrisos se delineavam nas bocas das caras dos olhos que viam as negras dançando descalças. Ah, que bom era comer bolacha de barro, revirar escombros e ter um sentido pra vida: o da miséria irrevogável! Ainda assim eu teria um contentamento estomacal, mesmo de estomago vazio. Pudesse eu com os pés no mar do Caribe recitar em Crioulo, não neste francês batido e barato dos livros lidos no original:
" Elle est retrouvée!
Quoi? L' éternité.
C´est la mar mêlée
Au soleil..." Rimbaud
Agora eu estou de volta, numa meia megalópole, agora só me resta uma borboleta seca, com asas negras de tons azuis e vermelho.Me resta a razão de um ocidental, a razão como a auto-compreensão dissecada pela conclusão: SOU UMA COISA!. Me resta ainda a RAZÃO, VIVA! ME RESTA A RAZÃO! A RAZÃO DE UM OCIENTAL ANTROPÓFAGO CULTURAL DAS COISAS VINDAS DE EUROPA E SOBRETUDO AINDA ME RESTA A DESEPERANÇA ABSOLUTA DE DE TER A BARRIGA CHEIA E A ALMA VAZIA.
OBRIGADO JESUIS!
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