quinta-feira, 8 de julho de 2010






Aonde a miséria existe, subsiste um contentamento vísceral e pleno. Um ardor e uma paixão voraz que substitui o grito pelo riso, quando não as lágrimas por gargalhadas.Isto é fatídico e lúdico.

Primeiro eu acerquei-me de toda minha limitação, depois despojei-me das minhas mais intrínsecas mentiras vitais,em seguida revesti-me da minha miserabilidade mais miserável, rejeitei o prato de arroz com feijão mais o vinagrete e o rocambole de carne e queijo do almoço. Esvaziei-me por completo das minhas ilusões de indulto, de minhas ânsias ultrajantes e dos meus trajes também. Voltei-me pro Haiti, bebi aguardente com velhos negros e todos eles eram Toussaint Louverture e todos os dias eram o primeiro de janeiro de 1804 e em todas as festas se praticavam rituais onde o sangue de animais respingava nas faces e os sorrisos se delineavam nas bocas das caras dos olhos que viam as negras dançando descalças. Ah, que bom era comer bolacha de barro, revirar escombros e ter um sentido pra vida: o da miséria irrevogável! Ainda assim eu teria um contentamento estomacal, mesmo de estomago vazio. Pudesse eu com os pés no mar do Caribe recitar em Crioulo, não neste francês batido e barato dos livros lidos no original:
" Elle est retrouvée!
Quoi? L' éternité.
C´est la mar mêlée
Au soleil..." Rimbaud
Agora eu estou de volta, numa meia megalópole, agora só me resta uma borboleta seca, com asas negras de tons azuis e vermelho.Me resta a razão de um ocidental, a razão como a auto-compreensão dissecada pela conclusão: SOU UMA COISA!. Me resta ainda a RAZÃO, VIVA! ME RESTA A RAZÃO! A RAZÃO DE UM OCIENTAL ANTROPÓFAGO CULTURAL DAS COISAS VINDAS DE EUROPA E SOBRETUDO AINDA ME RESTA A DESEPERANÇA ABSOLUTA DE DE TER A BARRIGA CHEIA E A ALMA VAZIA.

OBRIGADO JESUIS!

segunda-feira, 5 de julho de 2010



Ele tinha uma boina pôr sobre a peruca e um pássaro por baixo dela.Um cuco que vivia em sua cuca bem quentinho na peruca.Ele como a grande parte da humanidade, tinha pulga atrás da orelha também.Nas tardes ensolaradas dos dias de verão, a peruca do nosso valoroso varão mais se parecia com um ninho de guaxinim, nesses dias o pássaro sentia calor e ficava suado pôr baixo das asinhas. Ele sempre fôra desde a mocidade até os dias atuais, do sol poênte ao crepúsculo, na cidade ou na província, de sapatos ou sandálias,ele nunca deixara de ser, do nascimento ao falecimento:VENDEDOR AMBULANTE DE FRUTAS E VERDURAS. Tinha um vício, o da Pespsi-cola e suspiros doces. Gostava de lábios carnudos, vermelhos, moles e molhados em rostos rudes de tez negra dessas mulheres que nunca se enrubesciam.Ele nunca se constrangera,era destemido e pensava que apenas moços frescos e fracos, os janotas, se envergonhavam de certas coisas. Apenas estrangeiros em tudo se apalermavam com sensações de estranhamento diante das coisas pequenas e grandes, cotidianas e extraordinárias. Ele estava preparado para morte desde que nasceu. Ele bebia nas zonas baixas do centro, nos antros perto daquela antiga repartição pública . Gostava de putas e também das juke box. Tinha paixões,tinha time de coração e este nem preciso informar,mas praticamente em toda a gama de paixões que ardiam em seu peito, sequer havia uma paixão por algo impossível, irrealizável.Ele era simples e de paixões mundanas, e quando satisfazia alguma dessas paixões não padecia de dores de consciência, de culpas metafísicas, dessa formação judaica cristã no pensamento de um ocidental.Ele não sabia o que era oriente, tampouco ocidente,desconhecia tribulações de consciência e de razão " a la " Raskolhnikóv. As paixões mundanas preenchem as almas mundanas, e " Se Deus não existe, tudo é permitido" mas ele se permitia ao menos a respeitar portas de igreja, pastores, padres, frades, ícones de santos e acessórios da casa de candomblé.Não sabia se persignar e isso de religião pra ele era assunto grego. Ele era um homem que se dizia criado com papas do destino sem tempos de pratos e guardanapos. O vazio na vida dele era tão somente a ausência de freguesas, o silêncio do mundo interior, o vácuo de vento no bolso sem argumentos mercantis e as ruas desertas das madrugadas silentes em que voltava a pé pra pensão paupérrima. Dentre os mistérios místicos e científicos, o que mais o inquietava era não entender porque os cães das casas da vizinhança latiam pros homens sem medo dos homens.E os cães convencionais da vizinhança eram em sua maior parte menores que a altura dos joelhos dos homens. Ele não conhecia os cães São Bernardo.Ele não assistia televisão senão na copa do mundo, de quatro em quatro anos. Anuía e ria com as pilhérias dos locutores dos programas musicais no seu rádio de pilhas.Não sabia o que era neve porque no rádio só ouvia músicas regionais. Não sabia o que era neve porque não sabia ler, e se houvesse uma foto de neve com a legenda caracterizando:Neve, ele nem desconfiaria, pois pra ele uma foto de neve era apenas uma foto de gelo. Bebia aguardente, ficava amolecido, mas jamais conheceu o torpor dos psicotrópicos, do haxixe, dos liscérgicos, dos barbitúricos, jamais conhecera o extâse de rituais religiosos e de cultos racionais, mas gostava do mano Brown dos Racionais mcs. A mim me inquieta há dias o repentino sumiço de tal figura citadina. Por onde anda o vendedor ambulante de frutas e verduras? Morrera? Será que estuda biologia, isolado em seu quarto, á meia-luz de vela bruxuleante, será que já descobriu que a glicose e a frutose são chamados de hexose porque apresentam seis átomos de carbono na estrutura de suas moléculas? Será que morreu e o enterraram à sete palmos abaixo do chão que piso , enterrado tal qual uma mandioca? Se ele morreu e foi pro céu, creio que não deixará de ser um vendedor ambulante de frutas e verduras, creio bem que pouco que ele se tornaria um vendedor ambulante de algodão doce de Cumulus-Nimbus. Ele nasceu pra ser vendedor ambulantes de frutas e verduras a ponto tal, que as próprias frutas e verduras nasciam pra serem vendidas pelo vendedor ambulante. Imagino que ele,agora bem morto e celeste, vende ACÉUROLAS,AMÉMXAS,AMORÁGAPE,AVÉULÃS DE CORDEIRO QUE RASGOU O VÉU, CAJÁS DO CAJADO DE MOISÉS QUE SINGROU SANGRANDO O MAR VERMELHO DAS BETERRABAS. Posso até vê-lo apregoando: "TÊM CÉUREJAS, TÊM LARANJAS PRA ANJOS E ANJAS...NÃO, NÃO,NÃO TENHO O FRUTO PROIBIDO DO ÉDEN PERDIDO, MAS TÊM MACADÂMIAS DA ANTIGA MACEDÔNIA, TÊM CÉUNOURAS, ACÉUGAS, ALFACÉUS, CÉUBOLAS, COUVE-LOUVE-FLORES QUE BROTAM DA ABÓBADA CELESTE DONDE TAMBÉM BROTAM AS ABÓBORAS DIVINAS.TÊM FIGOS E TÂMARAS BEM DOCINHAS, QUER LEVAR UMA DÚZIA PRA JESUS, GABRIEL?...HOJE TÊM DIVINOS PEPINOS SERES CELESTIAIS" e no pedido de pimenta de cheiro de um anjo, eis que o nosso celestial vendedor ambulante de frutas e verduras responde de maneira seca e ríspida, um tanto que hostil:" Ô REBELADO, PIMENTA DE CHEIRO É SÓ NO INFERNO, E COM MUITO ENXOFRE!"