segunda-feira, 21 de junho de 2010
Do passeio revitalizado do centro da cidade, percorrendo até às zonas baixas do antigo centro, lá pelas bandas dos antros, prostíbulos, pensionatos e hotéis lúgubres cheios de enganadores. Das coquetes e dos rapazes empertigados em roupas de moda vigente e vulgar do centro iluminado até os transeuntes viciados, pederastas travestidos e traficantes de má catadura das zonas baixas. O fato desta constatação de impressão insólita e plausível acerca do contraste do alto centro das vitrines ás zonas baixas e vampirescas, tem como pedra de toque um mini e despretensioso tratado das luzes,ou ainda, da escuridão.Essa mesma luz alva, inventada pelo próprio Thomas Alva Edison que sob o aspecto da escuridão humana não vai muito além de um experimento científico um tanto aprimorado daqueles desenhos rúpestres de bichos e astros celestes que os homens pré-históricos desenhavam nas paredes das cavernas. Digo isso não pelo descaso com a invenção de Edison, digo isso pela absoluta proporção dos espaços lúgubres e tenebrosos da cidade onde ainda predomina, sobretudo nos mais fracos, o mesmo "medo ancestral"que nos toma ao sair da caverna, da taverna,de casa e que nos impele a caminhar temerosos ao lado de certas feições urbanas, ter de passar por...ter de caminhar por...dentro deste espetáculo urbano sombrio e sem brio de certas ruas necessárias ao caminho de nossas casas. Hoje experimentei percorrer estas duas zonas centrais com um livro na mão,desses livros de bolso que desde adolescente leio andando pelas ruas.O que recolhi de minha experiência foi que quanto mais se distancia do centro das alamedas de galerias, desses nossos “boulevards” e nos aproximamos das zonas periféricas deste mesmo centro de apenas quatro quarteirões abaixo , mais a luz vai se escasseando. As luzes noturnas da leitura possível brevemente vão se extinguindo, sim,uma porção física de trevas da má iluminação vão envolvendo as páginas e os olhos vão se esforçando cada vez mais,isto desde que você continue tentando ler enquanto vai descendo e descendo em rumo à essas zonas “vampirescas”. É importante notar que da idiossincrasia de minhas impressões inválidas desta expedição noturna em que proponho tecer uma geografia humanizada do centro da minha cidade, tão somente de minha idiossincrasia,eu percebi que nas zonas baixas o Verão é efêmero como um instante de suor,embriaguez, gozo, torpor e apoplexia.Já o Inverno ali se dá sempre, perenemente: Inverno.Ali se nota uma ousadia humana de ser humano sem ao menos se aperceber: Humano.Falta estilo e bons hábitos a essas pessoas despidas das partes baixas e sobra roupas, ornamentos , acessórios e maquilagens às pessoas da parte iluminada. O centro iluminado é sempre vazio, um deserto de luzes nocturnas.Mas ,hoje eu também procurei observar as casas dos arredores do centro de minha cidade. Em dezesseis passos contados por cada casa de cada quarteirão da vizinhança, eu me esforcei por tentar entender o que se passa nesta profusão de edificações de pisos, tijolos, paredes e almas, mas tudo é tão silente, recluso e privado dentro dessas propriedades...e concordo que assim é que deve ser...mas sem esforço, imaginei as mesas de jantar, as toalhas engorduradas das mesmas mesas de jantar,os televisores e os sofás, as camas de casal, o canto dos brinquedos, a cadeira de balanço, o casal antigo, os netos e bisnetos, a cozinha conjugada, os conjugues divorciados de alma,o canto dos ícones, a despensa de mantimentos,os pássaros engaiolados, a ração e os víveres, a leiteira, os copos,mas tudo isso estava tão envolto no mistério doméstico de também haver vidas além da minha própria vida, tão protegido pelos cães nos quintais que eu percebi como um latido bem forte no ouvido que a melhor coisa disso tudo é tudo isso ser irrevogavelmente assim,protegido, envolto, encapsulado.Estou protegido? envolto em segurança? Encapsulado? Sempre suspeitei que os ares noturnos e a brisa da madrugada é fresca e melíflua, é boa tanto pra saúde física quanto pra disposição afável da alma, mas o quão da matemática das probabilidades imensa do número de casos possíveis multiplicada pelo número de casos (des)favoráveis não me impele ao resultado temerário e alarmista, mas real, de que posso ser eu esfaqueado alheatoriamente por um mendigo ou vagabundo decrépito da minha vizinhança, como por exemplo Beckett esfaqueado sem motivo algum pelo andarilho das ruas de Montparnasse?...
Vampiros existem e eles estão na vizinhança.
quinta-feira, 17 de junho de 2010

Logo nas primeiras horas da manhã, uma explosão sensitiva de aromas e fragrâncias. Na mão um buquê de sabonete num mesmo jardim de banho cotidiano. Afora a sensação de estar sempre no mesmo jardim esfumaçado, um novo creme dental de menta americana de defronte ao espelho faz me refletir em um Francis Scott Fitzgerald com uma certeza de que Suave é a noite e Suave a manhã também. Acordo sempre nas últimas horas matinais. Meu desodorante tem um toque de chocolate, a chávena esfumaça um cheiro também do chocolate pro meu deleite. Na escrivaninha que carrego pra fora pra perto do jardim, ocupo meu lugar ao sol. Ao sol de Camus,ao sol dos comuns. A sensação macia e bucólica da primeira impressão viva do gato que come flores e ervas pra curar alguma dor de barriga. O gato roça por minhas pernas, serpenteia,o tépido calor do colar de fogo celeste faz-me pensar na energia vital que tanto me falta em momentos de TAEDIUM VITAE, e tanto sobra ao sol, que faz coisas mais importante que pensar no que verdadeiramente é importante.” É estranho pensar que freqüento e existo num ambiente de bom odor enquanto no mundo há uma quantidade infinita de lixões, cadáveres túmidos em decomposição, fossas, esgotos a céu aberto, feras e maníacos ao invés de gatos que buscam a cura comendo erva. Uma constatação matinal como o aprendizado da matemática para os meninos do período matutino: O MUNDO É SUJO E LIMPO. DESÉRTICO E HABITADO. O MUNDO É INÓSPITO E HABITADO. O MUNDO É FÉTIDO E DE BOM CHEIRO.”O MUNDO DO FELIZ É UM MUNDO DIFERENTE DO MUNDO DO INFELIZ...”Wittgenstein. E é possível também que no mundo se esteja sujo após um banho bem tomado, ainda mais, é possível também que se esteja limpo e alvo como a neve e o pelo do gato escovado, mesmo se estando sujo e estropiado”. Essas conclusões tirou ele a partir do banho, do ar matinal, do pelo macio do gato e da leitura às 11:00 da Ética de Wittgenstein, a partir do Tractatus.”É certo também que quando se lê sob a forte luz do sol, a vista fica embaçada durante alguns instantes quando do sol se sai.Assim também se dá metafóricamente e filosóficamente quando se lê o Belo das letras luzes e se sai desavisadamente para defronte da televisão, das situações cotidianas, das filas das repartições públicas, da viagem cotidiana pela desventura vulgar do comum e usual, de tudo o que não é Literatura e Arte, de tudo o que é ordinariamente regido pela convenção cega das regras humanas.Ah, as ruas, a vida, as avenidas, o campo, os cachos de banana banal, o prolixo que prolifera até quando vai pro lixo. O sangue, as comunas, a ignorância que sempre será o oráculo de nosso tempo, dos tempos idos e dos tempos que hão de vir.O declínio do Império, AS INVASÕES BÁRBARAS!
quarta-feira, 2 de junho de 2010

O VIZINHO TEM UM CÃO QUE SEMPRE ME ENTRETÊM NAS PRIMEIRAS HORAS DO DIA. DIR-SE-IA QUE DURANTE TODAS AS MANHÃS EU E O CÃO ENTABULAMOS UM DIÁLOGO MUDO, MAS DE MÚTUA COMPREENSÃO.O VIZINHO É HUMANO E TEM O DOM DESDITOSO DA CONVERSA MOLE DE JUDEUZINHO COMERCIANTE.HOJE, LOGO PELA MANHÃ O VIZINHO CHUTOU O CÃO COM VIOLÊNCIA.
O FATO DE O VIZINHO BATER NO CÃO É UM PROBLEMA DOMÉSTICO DELES DOIS. O FATO DE EU ENTABULAR CONVERSAS MUDAS COM O CÃO É UMA SOLUÇÃO PRA MINHA HUMANIDADE PATOLÓGICA DE SENTIR EXACERBADAMENTE TUDO O QUE HÁ NO MUNDO,DOS HOMENS ÀS ERVAS,DOS CÃES ÀS PULGAS...NO MUNDO HÁ UMA GAMA INFINITA DE POSSIBILIDADES, PROBLEMAS,SISTEMAS COMPLEXOS, CATASTRÓFES SOCIAIS E NATURAIS,PORTANTO, NÃO VOU CONTESTAR NEM FORMAR UMA OPINIÃO A RESPEITO DOS MÉTODOS QUE O VIZINHO USA PRA FAZER COM QUE O CÃO NÃO SAIA PRA FORA DO PORTÃO.O FATO DE EU ESCREVER O QUE VIVO NA RODA DOS COMUNS, DA QUAL SOU MAIS UMA SOMBRA, PREVÊ DOIS ASPECTOS: UM ÔNUS E UM BÔNUS.UM ÔNUS: O CÃO, O VIZINHO, A VIZINHANÇA E O MUNDO NÃO PRECISA ABSOLUTAMENTE DE NENHUM TOSTÃO DE IMPRESSÕES ESCRITAS DE MINHA PARTE. UM BÔNUS:CREIO QUE TUDO O QUE OBSERVO E ESCREVO,TUDO O QUE VEJO E ENCAMINHO PARA O TRIÂNGULO DE QUATRO ÂNGULOS DA MINHA IMAGINAÇÃO,VEM CONTRATUALMENTE ADEQUADA COM UMA IRRESPONSABILIDADE, UMA IRREVERÊNCIA, UMA LIBERDADE DE INTERPRETAÇÃO MUITO ASSEGURADA.É POSSÍVEL QUE SE COMPREENDA O MUNDO DE DUA MANEIRAS, UMA É DE UMA FORMA DALTÔNICA ONDE A POESIA E ARTE SE FAZ DESNECESSÁRIA. A OUTRA VEM A SER UMA MANEIRA TÉPIDA E MULTICOLORIDA DE REPRESENTAR O MUNDO E UMA TERCEIRA MANEIRA É A MANEIRA COMO VOCÊ CONCEBE O MUNDO EM SUA INDIVIDUALIDADE INTOCÁVEL,EM SUA "FORMA DE VIDA".
NO MAIS EU SÓ ESCREVO.Tudo se resume numa maneira de escrever em que quem se arrisca passa por uma explosão de cafeína momentânea, ou até mesmo,uma descompensação da cafeína e da energia mais básica de se locomover, sentar, deitar, pensar e ter certeza:ESSAS SÃO AS HORAS DO TORPOR.ESCREVER EM MIM É “DINAMIZAR O TÉDIO” E ENTEDIAR O LEITOR QUERIDO.A INTENÇÃO MAIS BÁSICA destes escritos passam pela mesma preguiça com que a atendente da mercearia usa a calculadora pra fazer cálculos simples, esta preguiça OBJETIVA QUE COMIGO se dá em níveis filosóficos ,ESTA MESMISSIMA PREGUIÇA OBJETIVA QUE AS VEZES ME IMPEDE (INIBE NA REALIDADE) de viver simplesmente. venho por meios de METÁFORAS CONFUSAS tentar validar o que é vida EM um aglomero de dúvidas.O que é ética? Beleza? Liberdade? Certeza? Criação literária? O que é isto, aquilo, este texto, esta intenção? Sou prenha de dúvidas, dou luz às incertezas, ao vago, a imprecisão, e nisto tudo vejo que algo ainda me consola: o fato exclusivo de minha ferramenta mais imprescindível ser o vago, o suscetível, o elemento que tanto pode ser o filho querido ou o órfão perdido.
“Ele estava sendo impelido rumo à vida como o disco estéril da Lua.
A tua palidez, Lua, será cansaço
De vogar tanto e tanto, a contemplar a Terra,
Sabendo que um de nós pode ser teu regaço?
Repetia para si mesmo as estrofes do fragmento de Shelley. A coaptação de sua triste ineficiência humana aos vastos ciclos da atividade sideral, esfriava-o. Tinha de esquecer a sua própria situação, que sendo humana, era, no entanto, ineficaz.” - Joyce
MINHA INEFICIÊNCIA HUMANA DE SENTIR PASSA POR MINHAS SENSAÇÕES E ACABA SE LIMITANDO EM LETRAS DO ALFABETO DA LINGUAGEM: M-I-N-H-A I-N-E-F-I-C-I-Ê-N-C-I-A D-E S-E-N-T-I-R C-O-M-O U-M S-E-R H-U-M-A-N-O E P-E-N-S-A-N-T-E Q-U-E F-A-Z U-S-O D-A L-I-N-G-U-A-G-E-M PRA VOS MOSTRAR QUE MAIS DO QUE SENTIR MINHA MISERABILIDADE HUMANA, FAÇO USO DAS PALAVRAS ... SE NÃO VENHO, NÃO VEJO E NÃO VENÇO...SE COM ISSO CONVENÇO,ADOEÇO OU CONVALESÇO...
Eu pontuo muito e pondero sempre que possível, a minha personalidade se constrói através de uma busca incessante pela linguagem lógica ou romântica para que no fim de todos os intentos, eu torne a negar o meu próprio conceito de imagem, não bem a negação em si do monóculo que define o conceito de imagem, mas das próprias vistas em baixo do monóculo, ou melhor, em mim. O meu único propósito ÉTER proposições, proposições no termo mais limitado e inativo da própria proposição.” A verdadeira descoberta é a que me torna capaz de romper com o filosofar, quando quiser...creio que há uma verdade quando penso que,de fato meu pensamento é apenas reprodutivo. Creio que nunca descobri um movimento intelectual,mas que me foi sempre dado por alguém. A única coisa que fiz foi aprende-lo de imediato,apaixonadamente,para o meu próprio trabalho de esclarecimento...” - Wittgenstein
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O OBJETIVO DA FILOSOFIA PRA WITTGENSTEIN É MOSTRAR À MOSCA A SAÍDA DO VIDRO
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